10
Set

Alento e Lamento

Sento-me entre duas Senhoras.
A Senhora  do Lamento e a Senhora do Alento.

Nesse diálogo que se quer silêncio, enquanto a  decomposição acontece no vagar dos dias.

O Outono é para os povos celtas arcaicos a primeira Primavera: é que eles entendem no sonho o início da Vida. O dia inicia no crepúsculo, onde o Sol se sonha para poder renascer. A Primavera tem o seu primeiro prenúncio, porque é no desfazer da polpa que se revela o coração semente do fruto.

Toda a maturidade culmina no despojamento. Num luto sem luta que traz o transformar no passado e a primeira e ainda potencial mas não expressa, revelação do futuro.
Este é um tempo fecundo, rico na fertilidade das últimas colheitas. À superfície da Terra tudo é, aparentemente, cada vez mais silente. No interior do solo, tudo fermenta. Decomposição é uma celebração da vida: micro-organismos diversos, fungos, bactérias, insectos, répteis celebram a transmutação da polpa em novo solo. Tudo fervilha, efervesce.

Creio que o mesmo acontece connosco: aparentemente há calma, interiormente uma tremenda agitação e intensidade. A vida urbana ainda não nos pode despir das mais primordiais camadas de pertença ao solo vivo, e isso, é inalienável. Continuamos a responder ao fervor da Terra viva, porque ela chama cada célula a estar em consonância com o tempo dos ciclos, sem hora marcada a ponteiros artificiais de uma agenda isolada e isolante.

Sento-me entre duas Senhoras, que guardam este umbral de uma quarentena: quarenta dias de ponte entre o Equinócio ou Rio Velho (como também lhe chama em alguns recônditos lugares do nosso país) e a Boa Morte. Tal como no mito de Osiris, o senhor do Bosque, que é vegetação, veado, rio; envelheceu. O seu corpo morre na entrada do Equinócio e decompõe-se em milhares de pedaços que se espalham por toda a Terra. O rio envelheceu e o seu outrora jovial e abundante caudal vai quase seco no encontro às margens agora largas.
É precisamente aqui, no contacto com tudo aquilo que falece, esmorece, decai, que inicia a primeira centelha do que será o chão, a semente e a raíz resiliente da renovação. É precisamente este umbral que culturalmente nos custa mais abarcar pois contém o paradoxo de encontrar na Morte a chama da renovação que é no fundo a única e eterna imortalidade: sempre a iniciar outra vez, pela primeira vez.

Na morte há santidade. Não a da fuga de uma celestialidade dissociada mas a da dignidade de se saber chão e teia da vida. De ser este corpo solo, corpo pó, corpo mineral, corpo ninho da semente que cresce, corpo fungo que cobre a Terra com a teia de micélio diversa sem a qual toda a esperança deixa de existir porque os seus orgânicos guardiães cederam.

Em algumas culturas ancestrais de África era proibido deitar água fervente no solo, para não romper a teia dos ancestrais. Já mergulhaste as mãos na Terra negra do bosque selvagem e tocaste a branca e sedosa teia que mora dentro do chão? Pois há povos para quem nada é mais sagrado. Aqueles que compreendem que para ascender começamos no sonho, o sonho começa na semente, a semente começa no solo e o solo começa na teia de fungos que se alimenta da morte.

Há aqui um segredo que é o sortilégio maior: para o bosque a morte não existe. Tudo é continuidade. Como seria perspectivar que a nossa Vida, como a nossa Morte servem o bem maior de todas as relações? Que quanto mais amorosos, equilibrados e criativos formos melhor vida e melhor solo seremos?
Sento-me pois entre dias Senhoras: a do Lamento e a do Alento.

Dou uma mão a cada uma.
Há luto, há perda, há dor, há queda.

Há sustentação, há libertação, há colo, há consolo.

Há sempre ambas as forças: o pranto também é parto e o parto também é pranto.

A morte também é santa e o nascer também é morte. Não há como não morrer em vida e não há como viver sem que partes de nós morram.

Sou o pó da foice das mãos de duas senhoras: a ceifeira e a semeadeira.

Estas Senhoras que pautam aldeias, serras e lugarejos da nossa terra a Oeste de um inteiro continente falam de forças naturais de força impossível de conter num nome próprio; recebem por isso como nome a sua magnânime qualidade.

Há duas irmãs que nos guardam: cada uma de um lado do rio. Atravessamos no equinócio de Outono da vitalidade para a decadência e no equinócio da Primavera atravessaremos da germinação que é raíz primeira para a ascensão até florescimento e fruto.

Estas duas irmãs lembram cada uma das nossas mãos de entregar e criar, criar e doar, libertar e receber. Estas duas irmãs ensinam-nos que tudo é relação e reciprocidade e que só é estéril uma vida sem paradoxos complementares, porque só aí o diálogo das forças convergentes internas e externas se esgota.

Em tempos de linearidade, tenhamos ramos nús porém dignos e de absoluta honestidade: sirva tudo o que largamos para nutrir as nossas raízes firmes e flexíveis. Encontremos na Natureza viva paradoxal porém una a força espiritual concreta capaz de nos dar a capacidade de ver e criar sentido e caminho.

Fotografia Mizé Jacinto

Artigo para revista Vento e Água