02
Mai

ERVAS DANINHAS DO ESPÍRITO INDOMÁVEL

Sim, na noite que se adensa há fogo firme

Sim, meu corpo que se abre é todo Terra

Sim, em Terra onde há Amor perece a guerra

Sim, o chamado retorna e não se esquece

Sim, há fogo que consome e não esmorece

Sim, é hora de acolher a intensidade

A forja é falo e ventre e é Verdade

Só temos duas escolhas a fazer: todo o caminho é crescer ou morrer

Sim, minha vulva é Terra e seiva e imensidão

Sim, meu ventre é escuro e pleno é puro chão

Sim, o falo deste Deus Homem Animal

É Alma, Sol, Semente, Pólen, Sémen, Coração

Só desta trança viva se ergue vida em toda a Terra

Este fogo é o da transformação

Fogo do ardor

Fogo do tesão

Fogo que nos lembra que é hora

Que o chamado está vivo e está aqui

Erguemo-nos de novo de dentro dos caminhos

Ervas daninhas do Espírito indomável

Chegou o tempo da verdade primeira

Sem metáfora, sem pastor, sem mensageiro

Seremos a escuta por inteiro

A soberania em tudo e em todos

Seremos voz e corpo consumido e renascido

Seremos o destino aqui tecido

Na fina teia que tudo permeia

Por todas as relações, sem excepção

Que ser erga a Vida Verde que dissemina

Que se erga o Veado e o Javali

Que se erga a dignidade que me evoca

Sou filha da Mãe de quem nasci

Faça-se com verdade, coragem, potência minha vida aqui

Temos chifres e patas de cabra

Porque cada um veio para ir onde ninguém ainda foi

Temos lama que se torna pele

Resiliência que nos orienta

Que é firmeza sem rigidez

Terra solta. sem aridez

Seiva pura que sangue, sémen e fluxo se fez

Temos que nos vir para existir

Porque sem chegar ninguém se é

O Amor aprende-se quando o corpo é chão, leito de rio

Céu estrelado, fogo, cinza, pó

Pedra terna

Paixão e compaixão na noite inteira

Na alvorada e no entardecer

O Céu será rasgado pelo trovão

A Terra será rasgada pela semente

O vento que é sopro ofegante

Trará o bago, a erva e o grão

Do nosso corpo, mãos e toque firme

O grão se fará pão

Como se rasga a Terra assim rasga o coração

Onde não há espaço não há fertilidade

O Sexo não é nosso, somos dele

É a vontade da Terra e Céu, da criação

Criando Vida, raíz, evolução

Uma oferenda que através de nós se manifesta

Que a força da Vida não tem amo nem aresta

Que a impeçam de brotar

Maia é a visão do que há-de vir

De quem nos teremos que tornar

Sementes são depostas aqui

Para o caminho que temos a criar

Cumpra-se aqui o eco da renovação

Que só na rebeldia, na fúria amorosa

Se Dá

Assim foi, Assim É, Assim Será

Para quem esteve, para quem está, para quem estará

Cumpra-se Maia verde, firme, suave e seiva

Cumpra-se Maio Maduro que se ergue e solta

Cumpra-se a Vida Selvagem

E a Alma que se rebela

Para caminharmos novamente

Em Beleza

Por entre a Terra

 

Foto da Maravilhosa Mizé Jacinto