18
Mai

SOU BRUXA

Eu sou Bruxa.

Não me chamem outra coisa, porque eu não quero.

Não me venham asseptizar como sacerdotisa, não é o que sou.

Não estou acima de ninguém,  nem quero estar.

Eu sou Bruxa porque sou chão.

Esse das cinzas das que morreram pela memória de um saber profundo.

Que brotam do chão e de nós em flor e canto.

Não me profanem com o vosso temor, preconceito ou romantismo.

Eu sou Bruxa porque toda eu sou Amor

Desse potente

Que ruge e tem garra e dente.

Que é leite cru, mas nunca açúcar.

Não sou a imagem literária nem cinematográfica desse poder falso e infantil.

Sou Bruxa como as Mulheres que ousaram parir Abril.

Sou campo de ervas daninhas.

Somos Bruxas, não estamos sozinhas.

Somos urtiga e rosa e espinho e hera

Filhas das ervas

Brotando da Terra.

livres da escravidão da estética e do comportamento.

Somos a substância do livre pensamento.

Semeadura, foice, vento.

Somos o que não sabemos

E a sabedoria que é fluxo

Somos as mil vozes oradas

Encantando o mundo

Desde o tempo primeiro.

Quem anda descalça, traz lama na borda da saia, chora muitas vezes e ri sem pudor.

Somos um campo aberto em flor.

Tudo nos atravessa,

Nada nos quebra.

Somos o espírito indomável e incorruptível do osso, da Pedra,  da Terra.

Nossos lutos e lutas são partos.

Nossas mãos nunca se esgotam.

Trazemos lamento e alento de mãos dadas.

Cuidamos o fogo, a água

O leito do rio, a sombra, o pão e o cio.

O Fogo não nos queima, ardemos porque somos Fogo.

E se a forja nos transforma sabemos que quem nos guia é a Senhora, a nossa.

Somos Bruxas.

Meigas, Magas

Não existimos para ser nenhuma outra coisa senão a Natureza Selvagem

Que urge retornar a cada tempo e lugar.

Abrimos caminho,

No transbordamento da tecelagem do tempo.