04
Mar

SUSTENTAR(-Te)

PARA QUEM CUIDA E CRIA PROJECTOS E RELAÇÕES:

ESTAMOS A TORNAR-NOS OS ANCESTRAIS QUE O MUNDO PRECISA?
Somos os descendentes de ontem e os ancestrais de amanhã.

No rescaldo de uma semana intensa de mergulho na ancestralidade, foi-nos possível colocar no lugar de quem esteve antes e perceber claramente que é para lá que nos dirigimos. Mas não da mesma maneira.
A brilhante Sofia Batalha (Serpente da Lua), trouxe esta questão essencial: que ancestrais nos estamos a tornar?

A semana encerrou sábado e a minha semana de acompanhamento terapêutico iniciou:
Acompanho individualmente muitas e muitos terapeutas, artistas e formadoras holísticas. Pessoas que têm em comum uma sensibilidade única com a qual vêem o mundo e tecem relações. Pessoas de coração imenso, generoso, verdadeiramente ao serviço. Pessoas que me inspiram a ser a cada dia uma pessoa melhor e a cultivar relações com mais cuidado, afecto e integridade.
Mas, estas mesmas pessoas, tal como eu e talvez tu que lês, partilham a sensação de que o que fazem não é suficiente.
Eu até podia dar aqui a fórmula do costume, e afunilar tudo para a insegurança pessoal. No entanto, não seria justo: pessoas sensíveis sabem que são parte de um planeta, a Terra, viva, consciente e em colapso humanitário e ecológico. Pessoas sensíveis procuram gerir todos os dias a frustração de não poder fazer mais e melhor, porque querem repôr o equilíbrio mas as suas mãos não chegam.
Esta fome de equilíbrio e justiça mistura-se com a sensação de não pertença. Nenhum de nós foi feito para pertencer tranquilamente a este caos violento milenar, desenganem-se. A vontade de pertencer a uma Terra sanada, a uma humanidade de valores confiáveis e sãos, que estas mesmas pessoas não se demitem de criar dia após dia.
Estas pessoas,  estão tão apuradamente sintonizadas com as necessidades de quem as rodeia, que frequentemente não sabem identificar as suas próprias necessidades. Ou sabem identificar e não sabem atender estas mesmas necessidades.
Muitas vezes, foram crianças de alguma forma negligenciadas, não foram priorizadas ou escutadas nas suas necessidades fisiológicas e/ ou emocionais. Muitas vezes, recebendo um comportamento similar ao que desde há gerações se perpetuava nas suas famílias.
São, por isso, pessoas super atentas a que ninguém nem nada tenha necessidades não acolhidas, mas que se deixam diluir frequentemente, levando-se a limites de grande fadiga física, mental, emocional, espiritual.

Então, qual é o lugar do desenvolvimento pessoal, do resgate de poder, numa cultura do desespero, que nos sufoca entre o medo e a produtividade constante? Onde a cada dia o trauma colectivo depura o nosso trauma individual, de tantas formas e em tantos aspectos.
Como gerir a sensibilidade, a criatividade, a empatia de forma a conseguir continuar a caminhar?

Claro que não há respostas fechadas a estas perguntas, e são na verdade questões orientadoras de auto-reflexão. Mas, como o equilíbrio começa na auto-regulação, há alguns passos importantes que pode fazer sentido re-avaliar.
O tempo corre, as solicitações são imensas, a comparação inevitável.
Cada vez que abrimos as redes sociais, o fenómeno do desenvolvimento pessoal transformado em mercadoria invade a nossa visão, no sentido mais amplo e profundo da palavra.
Invade a nossa visão e alimenta a dúvida.
O que consumimos consome-nos, devora-nos e cospe-nos sem trégua e há que saber possuir nada mais e tão somente a nossa liberdade e dignidade. Para assim podermos preservar a liberdade e dignidade naturais e orgânicas de cada Alma, Ser e parte desta Terra Viva.

Quero então falar de Tempo: nada funciona fora do seu ritmo natural. E sem encontrar a cada momento o nosso ritmo, a presença, que é um fluxo variável, como todas as forças fisiológicas, psicológicas e ecológicas, não pode acontecer. Uma definição constante de presença já é uma ausência, um dogma sem vida.
A presença é estar como estamos, seja ou não agradável, e assumir esse estar, sabendo que condições precisamos para poder desenvolver estados de mais equilíbrio, podendo assim gerir o desgaste que tanto é trazido pelo excesso de tristeza e raiva, como pelo excesso de euforia.
Precisamos de partir o mito de que presença é igual a felicidade. Às vezes é, às vezes não.
Não podemos ser escravos de constantes estados de bem-estar, nem infantilizar-nos ao ponto de ter que estar sempre contentes. Somos movimentos psíquicos, temos ciclos, estações, marés e só amadurecemos quando podemos conter a variabilidade emocional seja ela mais ou menos confortável.
Sejamos pois, cada vez, mais capazes de poder amparar os paradoxos da nossa natureza dual, sem procurar o que nos reduz apenas a sucesso e alegria.

A transformação é um processo que requer cuidado e muita paciência. Ninguém pode controlar o tempo do amadurecimento interior e da cura. Dar tempo e dar-se tempo é vital: tempo para fazer e tempo para digerir e integrar cada experiência.
. Tempo das relações:
permitir e expressar o afastamento para poder definir o que determinadas  situações e pessoas significam para nós e como nos relacionar com elas.
permitir e expressar a proximidade, de pessoas e situações onde há suporte mútuo e possibilidade de parar em segurança.
. Sair da pressa, da urgência, da preocupação: fazer uma coisa de cada vez, cada coisa do princípio ao fim. Definir fases do que não pode ser concluído de uma só vez, e aceitar parar por hoje, e continuar amanhã, concluindo passo a passo.
. Ousar terminar: suficientemente bom é bom o suficiente. Se está pronto, mesmo com medo, finaliza. Permite-te fechar uma jornada para teres disponibilidade para outras.
Conclui relações que trazem desgaste e não têm reciprocidade: se não há escuta, presença, partilha e cuidado mútuo estamos a plantar as nossas sementes na pedra. Por mais esforço que façamos, não vão germinar. Há que aprender a partir, sempre que necessário, mesmo quando não temos um melhor lugar em vista, ainda.
. Simplificar: deixar para trás o que não podemos materializar. Ou porque não temos energia, ou porque ainda não nos sentimos preparados.
. Definir timings fazíveis: para o que escolhemos fazer, definir quanto tempo nos envolvemos e a partir de quando começamos a envolver-nos. É mais saudável estar em menos contextos com mais presença, do que em muitos contextos sem vitalidade e disponibilidade mental e emocional. Se é para fazer, que estejamos inteiros onde estivermos.
. Honrar o tempo do corpo: dar a nós e aos outros tempo para repousar, repôr forças, de forma a agir com mais discernimento e precisão. Fazer pausas para descansar, comer, respirar, repor.
. Desligar e conectar: deixar de seguir nas redes sociais todas as pessoas que nos trazem a sensação de comparação e inferioridade. Não é justo para nós nem para estas pessoas estar a nutrir um elo tóxico. Então, desliga, e conecta-te a pessoas e páginas que te inspirem, que te ofereçam soluções e ideias inspiradoras de como cultivar equilíbrio interior, comunitário e ecológico através de passos simples mas concretizáveis. Ninguém pode fazer tudo, mas todos podemos fazer alguma coisa.
. Valoriza a diferença: o que nos diferencia torna-nos únicos. A nossa forma única de ver o mundo é necessária, importante. Pergunta-te o que tens a comunicar? Como gostarias de o fazer? Aprende a escutar, ouvindo e lendo conteúdos que te apoiam a saber ouvir e reflectir. Ouve-te com essa mesma curiosidade. Ideias simples são muito mais viáveis do que grandes ideias. Ideias simples apoiam muito mais a construção de relações humanas, a partir de empatia e conexão reais com realidades e emoções comuns. A tua experiência é válida, o teu contributo importante, seja ele qual for.
. Define: o que queres fazer? Na tua vida pessoal como profissional.
Quantas pessoas consegues ter próximo de ti, de forma a estares em equilíbrio? Se precisas de pequenos grupos, respeita isso. Se a multidão te desampara, não vás. Fica com o número de pessoas que te é sustentável, por quanto tempo quanto possas gerir em equilíbrio, a cada vez.
. Entende: o que é crescimento? Só pode crescer a árvore que tem o amparo da Terra. Uma vez que chegue ao limite de amparo que a Terra oferece, a árvore vai continuar a amadurecer, sem expressão visível de expansão. Às vezes, já não temos que crescer mais, mas preservar e cuidar o tanto que somos e temos. Crescer desmesuradamente consome recursos que podem começar a drenar mais energia do que a traze-la.
. Honra a tua vitalidade e bem-estar emocional pelo menos na mesma medida em que honras as tuas finanças. Tem dinheiro suficiente para o que precisas, mas tem tempo para ser e sentir. Esse tempo não se compra, só existe quando aceitas que não podes estar sempre a produzir resultados materiais, mas que há outras esferas nutridoras da Vida, invisíveis mas essenciais, que vais desenvolver.
. Ampara as tuas inseguranças e dúvidas: ousa questionar. A questão é sempre muito mais rica do que a afirmação. Cada pergunta tem em si possibilidades infinitas de resposta e dá-te a possibilidade de criar a tua relação única com a Vida. Podes mudar de ideias, podes dar respostas diferentes a cada momento. A dúvida tem imenso para oferecer, aceita a benção de poder conter a pergunta e ver como se desvenda a reflexão dentro de ti.
. A auto-estima é variável: depende do momento e da situação. Abraça essa variabilidade, não te objectifiques a ser somente uma coisa bonita, funcional e perfeita.
. Evita infantilizar e que te infantilizem, com elogios que não significam nada: princesa, deusa, rainha, bruxa, maga não são elogios, são estereótipos que nos remetem a uma posição de role play: brincar ao faz de conta. A tua presença é real, elogio é valorizar a  posição, opinião, os  valores, capacidades, inteligência e dignidade. Cada vez que recusas um lugar fictício defines com mais clareza a tua motivação e propósito e devolves dignidade às pessoas a quem comunicas.
. Não vendas a tua vida pessoal, a tua aparência e as tuas relações íntimas e familiares nas redes e nas interacções sociais. Dá a conhecer o teu trabalho, o teu valor e as tuas opiniões mas não vendas nem compres mitos. A relação humana ao mesmo nível é essencial para que haja confiança mútua: só podemos comunicar em verdade e abertura de igual para igual. A ideia de perfeição cria superioridade e afastamento. Podemos aprender somente de quem já caminhou por onde estamos a caminhar e por isso valoriza os nossos passos. Não existem relações, famílias, pessoas perfeitas nem ideais e isso é maravilho, torna-nos humanos e humildes.
. Valoriza os teus erros como parte essencial da aprendizagem: vê cada erro como uma oportunidade de reparar, aprender e saber algo que desconhecias. Pede desculpa, regenera, e observa as oportunidades novas e desconhecidas que cada erro oferece. Vamos ter que nos sintonizar imenso com esta proposta em termos ecológicos e sociais, vamos lá!
. Cria laços de irmandade afectiva: o colo é um valor essencial para podermos existir. Temos que reaprender a dar e receber colo, consolo, confortar. Sobretudo porque: não é suposto cuidarmos sempre de nós sozinhas(os), nem deixar os outros sozinhos quando precisam de apoio. Somos mamíferos, animais de clã e temos que saber criar a nossa tribo ou emocionalmente, a sensação será a de não sermos capazes de sobreviver. Escolhe pessoas que tenham espaço para aceitar a tua mudança e cujas mudanças tu também tens espaço para aceitar, mesmo se nunca sabemos o que a mudança nos tornará e o que trará. Enraizar também se aprende.

A ancestral que me quero tornar não quer saber se eu fiz muito ou pouco dinheiro, se fui ou não bem-sucedida ou famosa. A ancestral que me quero tornar quer saber se criei laços afectivos, se amparei quem chegou até mim quebrada(o), se fui capaz de aprender através do meu corpo a cuidar da saúde física e emocional, para a partir daí ter a bússola para apoiar os outros na regeneração. Ela quer saber se soube amar e fui amada, se perdoei, pedi perdão e assumi quando não consegui perdoar e ser perdoada: Ela quer saber se não tive medo da bosta, da lama e da saliva e se encontrei nos fluídos espaços de fertilidade depois de abraçar a morte.
Ela quer saber se me sujei, se me rasguei e como me limpei e recosturei, sem largar a mão de quem amo, e de quem me procurou. Ela quer que a cada passo do caminho eu seja como a Água: que é a mais baixa de todos os elementos mas que ainda assim perfura a dureza da Terra, traz fluidez à rigidez, dá de beber a tudo e todos por onde passa, honrando sempre o tempo das suas correntes e marés e transformando-se nesta relação maior.
E tu? O que te pede a/o ancestral que te tornarás?

 

Fotografia da Brilhante Mizé Jacinto, cujo olhar define a intenção da mensagem
Porquê esta foto?
Porque cada imagem traz símbolos e comunica realidades. Aqui, a posição das minhas mãos sinaliza um cuidar mútuo de mim e da teia de relações da Vida, expressa na árvore coberta de hera.
Esta posição das mãos lembra-me que estamos sempre a dar e a receber, simultâneamente. Também me diz que simultâneamente estamos em relação permanente connosco, com os outros, com a Terra e o mundo. E a ti, o que te comunica?